Ir direto para menu de acessibilidade.
Portal do Governo Brasileiro
Página inicial > Aviação e História > AVIAÇÃO E HISTORIA > Raid do Avião “Duque de Caxias” (Segunda Parte)
Início do conteúdo da página

\.o./ Aviação e História \.o./

 Primeiros países, primeiros problemas

SO Jefferson E. S. Machado*

Após a decolagem em meio a muitas festas começou a verdadeira aventura. Na edição de sábado, dia 12 de setembro, o jornal Correio da Manhã noticiou, a partir de comunicações feitas por telegrafistas e por um telegrama que os pilotos enviaram ao Ministro da Guerra General Leite de Castro, que por problemas de consumo de combustível, devido ao excesso de manobras necessárias para contornar a tempestade e a energia gasta para romper o vento, a aeronave não conseguiu alcançar Porto Alegre.

 

A viagem até Rio Grande foi effectuada sob condições atmosphericas más. Devido ao nevoeiro e às chuvas, fomos obrigados a aterrar normalmente no município de São Leopoldo na povoação de Sapiranga. Pretendemos preparar a pista para a “decollage” daqui logo que o tempo o permitta. (a) Archimedes, Mello e Vidal.1

**Clique na foto para ampliar

Clique + fotos

Segundo o Ten. Mello em entrevista ao Correio da Manhã a viagem entre Rio e Porto Alegre durou 10 horas e em quatro delas o vôo foi muito difícil.2 Além disso, o Ten. Vidal em telegrama direcionado a seu pai, General Alfredo Vidal, relatou os mesmos problemas. Seu tio Jaime escreveu ao irmão, chamando a atenção de que o oficial aviador havia encontrado com ele no hotel e que esse lhe informou que aterrou em Sapiranga, 40 km de Porto Alegre, por falta de combustível. Relatou ainda que a viagem causava grande interesse na imprensa e nas pessoas em geral, chegando a reclamar que “(...)não obstante os desejos ardentes e tentativas de falar-lhe (com o Ten. Vidal) a sós, isso não foi possível porque os carrapatos não o largavam um momento.”

Após a partida de Porto Alegre as condições climáticas continuaram a atrapalhar o transcorrer da aventura. Segundo o Correio da Manhã de 18 de setembro, um telegrama dos tripulantes informava que tiveram que mudar a rota, pois a Serra do Mar estava totalmente coberta pelas nuvens. Lembramos aqui, que um dos grandes problemas da aviação nessa época era a falta dos instrumentos de auxílio à navegação tão comuns nos dias de hoje. Os voos eram visuais, por isso a dificuldade diante das tempestades, que os faziam voar muito baixo a fim de propiciar uma melhor observação da rota a ser seguida, que era guiada através da visualização do relevo, além de possibilitar o desvio da turbulência causada pelas nuvens densas.

A situação continuou quando adentraram em território paraguaio. A necessidade de voar baixo trouxe uma surpresa para os tripulantes. Em seus relatos afirmam que a população mostrou grande alegria com sua passagem. Nessa escala foram homenageados efusivamente e recebidos por várias autoridades do país, incluindo o presidente da República. Visitaram as redações dos jornais em agradecimento a cobertura jornalística realizada, participaram de um jantar oferecido pelo Estado Maior do Exército e uma recepção na embaixada brasileira.3

Ao partirem de Assunção para Montevidéu o motor da aeronave começou a apresentar problemas. Segundo Ten Mello, “começou a botar fora muito óleo”. Mesmo assim, continuaram a viagem até Buenos Aires onde um mecânico da Lorraine, empresa fabricante do motor que equipava o aparelho, realizou uma revisão no motor, com o objetivo de deixar a aeronave em condições de continuar a viagem em sua parte mais difícil que seria a travessia dos Andes.4 

**Clique na foto para ampliar

Clique + fotos

Este trecho da aventura foi interrompido devido aos problemas que o motor já vinha apresentando, “grande perda de óleo, o que forçou o avião a uma sensível baixa de regimem”.5 Mello relatou que conseguiram subir a uma altitude de 4. 500 metros. Porém um dos “magnetos repentinamente começou a falhar” e o avião bruscamente perdeu altura.6

Em 27 de setembro, segundo o jornal A Noite, sobre o olhar de “trezentas pessoas, entre as quaes o embaixador do Brasil, Dr. José de Paula Rodrigues Alves”, chegaram a Santiago do Chile. Segundo o relato da tripulação a viagem teve a duração de oito horas em condições satisfatórias.7

O A Batalha comunicou a partida de Iquique para La Paz.12 Essa etapa levaria a aeronave a uma altitude de 4.000 metros acima do nível do mar, sendo que como informamos no texto anterior, seu limite extremo era de 4.200. Segundo o Diário Carioca, essa etapa fazia parte do planejamento e devido a grande dificuldade que enfrentaria o equipamento foi realizada uma vistoria rigorosa.13

Devido a um pouso forçado, segundo o Jornal do Brasil, aterraram em 07 de outubro na cidade portuária de Arica no Chile.8 O Correio da Manhã do dia 09 noticiou a possibilidade da aventura tornar-se frustrada.

 

O cruzeiro brasileiro em torno das Américas que vinha sendo tão brilhantemente executado pelo avião “Duque de Caxias”, poe uma circunstâncias fortuita e absolutamente alheia a competência e à bravura dos seus tripulantes, teve de ser encerrado em Arica, onde e surpreendeu um certo desarranjo no motor. O acidente veio provar que essa peça fundamental do grande aparelho não está a altura de cumprir a rude experiêcia a que foi submetida, o que quer dizer que não corresponde à qualidade da possante aeronave. É pena que se interrompa assim tão belo empreendimento da nossa aviação militar (…).9

Porém, a própria notícia deixa claro que os pilotos queriam continuar. E assim foi feito. Na edição do mesmo periódico no dia 11 já está impressa a notícia de que a empreitada continuaria a partir de confirmada pelo Ministro da Guerra .10

Em 15 de outubro o matutino avisa que o reparo do motor foi satisfatório. Os pilotos realizaram um voo teste, em 12 de outubro, segundo a caderneta de Vidal, e confirmaram a possibilidade da missão dar prosseguimento. Além disso, informa a baixa de um dos tripulantes. O Tenente Mello adquiriu uma enfermidade que não é muito esclarecida, porém esse mal o impediu de continuar. Após o comunicado enviado pelo Ten. Arquimedes Cordeiro ao General Leite e Castro foi designado o Ten. Orsini de Araújo como substituto.11

**Clique na foto para ampliar

Clique + fotos

Na caderneta de voo do Ten. Vidal, temos a informação que entre Arica e La Paz foram usadas duas aeronaves. Primeiro no dia 13 de outubro temos uma marcação onde o Amiot, “Duque de Caxias”, realizou uma viagem entre Arica e La Paz voando a 5.800 metros e levando 3 horas de viagem. Lembremos que o avião só voava até 4.200, com segurança, e que ao voar a 4.500 entre Buenos Aires e Santiago apresentou sérios problemas. Em seguida está escrito que o avião, onde Vidal atuou como observador, era uma aeronave Junker da empresa Loyds-boliviano Vanguardia, que saiu de La Paz à Arica no mesmo dia 13, voando 3 horas e 5 minutos à 5.600 metros. Depois retorna no mesmo dia em uma missão de 2 horas e 50 minutos entre Arica e La Paz. Aí não há o registro de retorno de viagem entre La Paz e Arica. O que vai estar marcado é uma missão entre Arica e Lima. Está tendo sido realizada no Amiot já com a participação do Ten. Orsini e o Cap. Archimedes.

Fica aqui uma dúvida sobre a ida ou não do “Duque de Caxias” até La Paz. Se foi não retornou? Será que não marcaram seu retorno na caderneta por engano? Será que ele não voou até lá e foi utilizada outra? Estas dúvidas dificilmente serão resolvidas, porém, não diminuem em nada a importância de uma aventura como essa.

 

 

Imagens
**Jornais: Hemeroteca Digital Brasileira. Disponível em: https://bndigital.bn.br/hemeroteca-digital/.
***Caderneta e Carta: Acervo do Museu Aeroespacial
Referências
1CORREIO DA MANHÃ. 12 Set 1931, p. 3.
2CORREIO DA MANHÃ. 25 Set 1931, p. 3.
3CORREIO DA MANHÃ. 18 Set 1931, p. 1.
4CORREIO DA MANHÃ. 25 Out 1931, p. 3.
5CORREIO DA MANHÃ. 09 Out 1931, p. 1.
6CORREIO DA MANHÃ. 25 Out 1931, p. 3.
7A NOITE. 28 Set 1931, p. 3.
12A BATALHA. 28 Out 1931 ?
13DIÁRIO CARIOCA. 06 Out 1931, p. 3.
8JORNAL DO BRASIL. 08 Out 1931, p. 9.
9CORREIO DA MANHÃ. 09 Out. 1931, p. 1
10CORREIO DA MANHÃ. 11 Out 1931, p. 2.
11CORREIO DA MANHÃ. 15 Out 1931, p. 3.

*O autor é Suboficial da Força Aérea Brasileira e Doutor em História Comparada pelo Programa de Pós Graduação em História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 

 

Viaje nesse projeto!


Fim do conteúdo da página