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Uma velha senhora

Quando nos referimos a uma “senhora”, normalmente nos vem a ideia de uma mulher já não tão jovem, investida de certo valor, reconhecido em seu meio social, merecedora de reverência e respeito. Ao se agregar a condição de “velha”, ainda que nos tempos atuais possa expressar a condição de ultrapassado ou já sem as condições plenas, próprias da juventude, potencializamos o valor e o respeito devido a essa senhora.

Todos nós conhecemos algumas velhas senhoras. Algumas mais próximas e mais queridas. Outras que cruzaram de alguma forma as nossas vidas. Eu queria expressar a minha visão sobre uma velha senhora, conhecida de muitos.

Essa senhora surgiu em minha vida lá pela metade do tempo da minha vida profissional. Eu a conhecia de longe e de ouvir falar de outros que já haviam estado com ela. Seu nascimento se deu no pós Segunda Guerra Mundial, em uma época de transformações políticas, sociais e tecnológicas do nosso Brasil.

Ao nascer, nem casa própria tinha, sua identidade foi reconhecida  com dois anos de vida, quando passou a viver em uma residência própria, na rua das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, então Capital Federal. De fato, ela se mudaria dali para a Ilha do Governador e, posteriormente, fixaria endereço no lendário Campo dos Afonsos, berço da Aviação Militar do Brasil.

Mas o que dizer dessa senhora? Ao nascer, mesmo sem casa, já lhe entregaram filhos para cuidar e educar. E esses filhos, uma vez educados, eram devolvidos ao mundo para seguir suas carreiras profissionais, contribuindo com o crescimento de um Brasil ávido por se tornar grandioso. Essa senhora sempre teve em sua casa mordomos fiéis. E, nesse caso, os mordomos sempre foram cuidadosos e dedicados, diferente dos filmes onde lhes conferem sempre a culpa por algum crime cometido. Um detalhe interessante é que esses mordomos antes de assumirem essa função, foram filhos da velha senhora e permaneciam ou regressariam posteriormente ao seu período de educação, para cuidar da casa.

A velha senhora viu e viveu revoluções no país, presenciou mudanças das mais variadas na política, na economia, nos governos, na sociedade, na moda e nos costumes. Já assistiu a cinco taças mundiais do Brasil no futebol e em tantas outras vitórias em outros esportes. Viu o homem chegar à Lua. Estudou as guerras que, infelizmente, assolaram o mundo e o Brasil, antes e depois de seu nascimento.

Em todos os anos, ela recebeu novos filhos e os educou de maneira firme, competente e cuidadosa. Transformou seus comportamentos, dando-lhes uma visão mais ampla do mundo, trazendo-os do tático para o operacional e, mais adiante, lhes oferecendo um olhar estratégico e político, revestido das asas que o cavaleiro do ar necessita.

Os seus mordomos, de hoje e de sempre, pois nunca nos sairá da pele essa condição, se reúnem todos os anos para celebrar a sua existência e comemorar, a contribuição que a educação proporcionada por essa senhora que neste ano de 2021 completou 75 anos. Gerações e gerações de filhos que se tornaram seus mordomos, os graduados, os funcionários, os professores, os instrutores e os comandantes, ao se reunirem, são tomados de uma emoção ímpar, que se traduz no olhar para a história e o vislumbrar do futuro. Futuro não só da velha senhora, mas do país. Este Brasil que nos abriga, que nos dá identidade, nos faz lutar por liberdade, soberania e grandeza.

Ao longo desses últimos quatorze anos em que fui acolhido como mordomo da casa da velha senhora, já tendo sido seu filho dois anos antes disso, tive a felicidade de cuidar da vida desta casa, de ajudar na educação de tantos filhos, hoje muitos já no topo da carreira. Convivi com outros mordomos que tão bem me receberam e que serviram de guia e me animaram. Nesse tempo todo, aprendi com os demais instrutores e comandantes, o valor do trabalho em equipe, a importância da Força Aérea no cenário estratégico e político e que, sem um planejamento adequado, oportuno e aceitável, nós não sobreviveremos após o primeiro disparo no campo de batalha.

A velha senhora se curva ao tempo, e como bem diz a cultura oriental, ao se curvar, o arroz indica que está pleno de seu fruto. A sua existência significa muito mais do que um tempo de produção pelo simples produzir. Por ser uma escola, seus 75 anos de existência criaram uma cultura, fomentaram o pensamento militar, mais especificamente, do poder aéreo. A Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica transformou comportamentos, lapidou comandantes, forjou líderes.

Uma questão interessante que pude testemunhar nesses últimos quatorze anos, foi a transformação dos alunos ao longo do ano letivo. Sempre ao iniciar os cursos, pedimos a eles para que não briguem com a escola. À primeira vista parece ser uma postura de não contestação, mas que, por trás disso, é na realidade um pedido para primeiramente observar, criticar e assim, trabalhar junto para aperfeiçoar os processos de ensino. Somente quem vive e viveu os bastidores da vida da escola poderá ter a compreensão da dimensão de administrar uma instituição com a envergadura da ECEMAR. Coisa de super-homens? Não. Trata-se de querer e de entender o significado da educação em todos os níveis e, em especial, quando o oficial em sua carreira passa a atuar em esferas de elevada decisão.

A velha senhora cuida de homens e mulheres que pensam, já dizia um falecido Ministro da Aeronáutica. E esse pensar está na identidade do homem que voa e faz voar. Muito mais do que um produto numérico e fabril, o egresso da ECEMAR é o profissional do poder aéreo que estuda, que planeja, que assessora, que pondera, que decide e que se submete a inúmeros sacrifícios para cumprir a missão recebida.

Esse tem sido o papel da ECEMAR, a Academia de Guerra da Força Aérea Brasileira, nesses 75 anos de vida: forjar líderes que pensam, dentro dessa cultura diariamente alimentada pelo conhecimento, pela pesquisa, pelas tradições, pelos valores e pelo amor aos ideais que movem os nobres de espírito, seus filhos e seus mordomos.

Que bom que a identidade, as tradições e a história desta Escola não foram perdidas, pelo contrário, estão sendo preservadas com toda a dedicação e perseverança pelos seus integrantes.

Como escreveu Walter Lippmann, escritor, jornalista e comentarista político estadunidense, que viveu entre 23 SET 1889 e 14 DEZ 1974:

 “Líderes são os guardiões dos ideais de uma nação, das crenças que ela cultiva, de suas esperanças permanentes, da fé que faz uma nação de um mero agregado de indivíduos.”

 Rio de Janeiro, 19 de março de 2021.

 LUIZ GUSTAVO SCHENK - Cel Av Veterano

Instrutor da ECEMAR

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